Apib cobra suspensão de marco temporal e avalia deixar comissão do STF

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) manifestou-se contra a manutenção do marco temporal nas discussões sobre terras indígenas no Supremo Tribunal Federal (STF) e avalia deixar a comissão que acompanha o tema. A medida representa mais um capítulo na longa disputa jurídica e política envolvendo os direitos territoriais indígenas no Brasil.

O que é o marco temporal?

O marco temporal é uma tese jurídica que defende que os povos indígenas têm direito apenas às terras que estavam ocupando em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal. Para indigenistas, a tese ignora as situações de violência e esbulho que forçaram deslocamentos ao longo da história.

Em 2023, o STF julgou o Recurso Extraordinário 1017365, com repercussão geral, e rejeitou a aplicação do marco temporal como critério único para demarcação. No entanto, a tese continua sendo invocada em decisões judiciais e em projetos de lei no Congresso, como o PL 490/2007, que tenta consolidar o marco.

Principais críticas ao marco temporal

  • Desconsidera a história de expulsão e violência contra os povos indígenas.
  • Fere o direito originário previsto na Constituição.
  • Cria insegurança jurídica ao permitir questionamentos constantes das demarcações.
  • Desrespeita convenções internacionais das quais o Brasil é signatário.

A posição da Apib

A Apib sempre se opôs ao marco temporal. A organização integra uma comissão de conciliação instituída pelo STF com o objetivo de buscar soluções consensuadas para a demarcação de terras indígenas. Contudo, diante da falta de avanços concretos e da insistência de setores políticos e jurídicos no marco temporal, a Apib avalia que sua permanência na comissão perde o sentido.

Em nota divulgada em seus canais oficiais, a Apib cobrou a suspensão imediata de qualquer medida que aplique o marco temporal e sinalizou que, se a tese continuar sendo utilizada como parâmetro, deixará a comissão. A organização considera que o diálogo institucional se torna inviável quando os direitos originários dos povos indígenas são desrespeitados.

  • Defesa dos direitos originários sobre as terras tradicionalmente ocupadas.
  • Rejeição do marco temporal como critério único de demarcação.
  • Participação na comissão do STF condicionada à suspensão do marco.
  • Disposição para recorrer a instâncias internacionais se necessário.

Reações e contexto

Outras entidades indigenistas apoiaram a posição da Apib. O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e a Associação Brasileira de Antropologia (ABA) manifestaram solidariedade. Por outro lado, parlamentares da bancada ruralista criticaram a decisão e defendem o marco temporal como instrumento de segurança jurídica para o agronegócio.

O STF, por sua vez, busca manter o diálogo aberto. O ministro Edson Fachin, relator do caso, já sinalizou a importância da comissão para construir uma solução pacífica. No entanto, a pressão política e os prazos processuais tornam o cenário incerto.

Possíveis desdobramentos

Se a Apib deixar a comissão, o processo de conciliação pode perder representatividade. A saída da principal organização indígena do país enfraqueceria a legitimidade dos debates e poderia levar a um recrudescimento dos conflitos no campo. Além disso, a comunidade internacional observa com atenção o tratamento dos direitos indígenas no Brasil.

No Congresso, tramitam projetos de lei que pretendem estabelecer o marco temporal como critério legal. A pressão internacional e as decisões do STF serão determinantes para o futuro da demarcação de terras indígenas. A Apib promete continuar mobilizada e recorrer a instâncias internacionais, como a Corte Interamericana de Direitos Humanos, caso seus direitos não sejam garantidos.

Impacto internacional

A decisão da Apib também repercutiu internacionalmente. Organizações de direitos humanos, como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch, manifestaram apoio à suspensão do marco temporal. A Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) já sinalizou que o Brasil deve respeitar os direitos territoriais indígenas conforme a Convenção 169 da OIT. A saída da Apib da comissão do STF pode aumentar a pressão sobre o governo brasileiro em foros multilaterais, incluindo a ONU.

Perguntas frequentes

O que é a Apib?

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) é uma organização que reúne entidades e lideranças indígenas de todo o país, representando mais de 300 povos. Atua na defesa dos direitos territoriais, culturais e políticos dos povos indígenas.

O que significa marco temporal para os povos indígenas?

O marco temporal é a tese de que os indígenas só teriam direito às terras que ocupavam em 5 de outubro de 1988. Para os povos indígenas, essa tese é inconstitucional, pois desconsidera a história de expulsão e violência que sofreram, além de ignorar o caráter originário do direito às terras.

Por que a Apib quer sair da comissão do STF?

A Apib alega que a comissão não tem avançado na superação do marco temporal e que sua participação estaria legitimando um processo que não respeita os direitos indígenas. Caso o marco continue sendo aplicado, a organização não vê sentido em permanecer na mesa de negociação.

Qual a situação atual do marco temporal no STF?

O STF já decidiu, no RE 1017365, que o marco temporal é inconstitucional. No entanto, a decisão tem repercussão geral e deve ser aplicada em todo o Judiciário. A comissão de conciliação foi criada para ajustar as ações e garantir a implementação da decisão. A saída da Apib pode complicar esse processo.

O que diz o governo brasileiro?

O governo federal, por meio da Funai e da Advocacia-Geral da União, tem se manifestado contra o marco temporal, defendendo a decisão do STF. No entanto, a pressão da bancada ruralista no Congresso dificulta a aprovação de uma legislação que consolide o entendimento da Corte.

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