Atendimento oftalmológico de crianças no SUS retoma nível pré‑pandemia

Após uma queda significativa durante a pandemia de Covid‑19, os atendimentos oftalmológicos infantis na rede pública de saúde voltaram aos patamares registrados antes da crise sanitária. A retomada foi impulsionada por mutirões de cirurgias, campanhas de triagem visual nas escolas e a reorganização dos serviços de atenção básica e especializada. O movimento representa um alívio para milhares de famílias que aguardavam por consultas e procedimentos.

A importância do cuidado com a visão na infância

Grande parte das crianças em idade escolar apresenta algum problema de visão não diagnosticado. Condições como miopia, hipermetropia, astigmatismo, ambliopia (olho preguiçoso) e estrabismo, quando identificadas precocemente, têm tratamento eficaz e podem prevenir danos permanentes à visão. A boa acuidade visual está diretamente relacionada ao desempenho escolar: crianças que enxergam mal têm mais dificuldade de leitura, escrita e participação nas atividades em sala.

O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece, de forma gratuita, consultas com oftalmologistas, exames complementares, fornecimento de óculos e cirurgias pediátricas. A porta de entrada geralmente é a Unidade Básica de Saúde (UBS), onde o médico da família pode fazer a primeira avaliação e encaminhar para o especialista quando necessário.

O impacto da pandemia nos diagnósticos e tratamentos

Com a suspensão de consultas eletivas e o fechamento das escolas entre 2020 e 2021, milhões de crianças deixaram de realizar exames de acuidade visual e consultas de rotina. Dados do Ministério da Saúde indicam que houve uma redução expressiva no número de consultas oftalmológicas totais no SUS, especialmente entre crianças de 0 a 6 anos, período crítico para o desenvolvimento visual.

A interrupção das campanhas de saúde escolar, como o Programa Saúde na Escola (PSE), agravou o cenário. Muitas crianças que necessitavam de óculos ou de cirurgia corretiva deixaram de ser identificadas. O resultado foi um acúmulo de casos represados, com filas de espera que se estenderam por meses ou até anos.

Estratégias de retomada: mutirões, telemedicina e campanhas

Para reverter esse quadro, estados e municípios adotaram uma série de medidas a partir de 2022. Os mutirões de cirurgias oftalmológicas pediátricas foram uma das principais estratégias, com a realização de procedimentos de catarata congênita, estrabismo e ptose palpebral em mutirões regionais. Fundações e hospitais filantrópicos atuaram em parceria com o SUS para ampliar a capacidade cirúrgica.

A telemedicina também ganhou espaço: plataformas de teleoftalmologia permitiram que médicos de grandes centros avaliassem exames de retinografia e biomicroscopia realizados em municípios distantes, reduzindo a necessidade de deslocamento. A retomada do PSE em 2023 e 2024 possibilitou a triagem visual de milhões de alunos da rede pública, com encaminhamento ágil para consultas especializadas.

Campanhas nacionais de saúde ocular mobilizaram unidades de saúde e escolas para a conscientização e oferta de exames. Em várias cidades, foram instalados consultórios móveis oftalmológicos para atender regiões mais carentes.

Desafios atuais e gargalos persistentes

Apesar da recuperação do volume de atendimentos, o sistema ainda enfrenta obstáculos importantes. A distribuição desigual de oftalmopediatras é um deles: a maior parte dos especialistas está concentrada nas capitais e grandes centros, deixando o interior com déficit de profissionais. As filas de espera para cirurgias de estrabismo e catarata pediátrica ainda são longas em alguns estados, e o tempo médio para uma consulta especializada pode ultrapassar seis meses.

Outro gargalo é a falta de equipamentos de diagnóstico na atenção básica. Muitas UBS não dispõem de oftalmoscópios ou retinógrafos, o que limita a capacidade de triagem. A capacitação de médicos da família e enfermeiros para realizar testes simples de acuidade visual é uma medida de baixo custo que pode ampliar significativamente a cobertura.

A infraestrutura hospitalar para cirurgias oftalmológicas infantis também precisa de investimentos, especialmente em leitos pediátricos, equipamentos de anestesia e materiais específicos para cirurgia de catarata congênita.

Perspectivas para o futuro da oftalmologia pediátrica no SUS

A tendência é de continuidade da retomada, com a consolidação dos mutirões como política permanente e a ampliação da teleoftalmologia. O governo federal tem sinalizado a intenção de incluir a oftalmologia no rol de especialidades financiadas por programas de médicos para o interior, o que pode melhorar a distribuição de profissionais. A integração entre atenção básica, média e alta complexidade por meio de redes de cuidado em saúde ocular é outro avanço esperado.

No âmbito escolar, a volta definitiva das ações do PSE com foco em saúde visual deve garantir que as futuras gerações tenham acesso precoce ao diagnóstico. A tecnologia também pode contribuir: aplicativos de triagem visual e inteligência artificial aplicada à retinografia já são realidade em alguns serviços e tendem a se difundir.

Em suma, o atendimento oftalmológico de crianças no SUS está em franca recuperação, mas o caminho para uma cobertura universal e de qualidade ainda exige investimentos, planejamento e articulação entre os entes federativos.

Perguntas frequentes sobre atendimento oftalmológico infantil no SUS

Como agendar uma consulta oftalmológica infantil pelo SUS?

O primeiro passo é procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima de sua residência. O médico da família ou clínico geral fará uma avaliação inicial e, se identificar sinais de problemas visuais, emitirá um encaminhamento (referência) para o oftalmologista. Em muitos municípios, o agendamento pode ser feito pela central de regulação ou aplicativo de saúde local.

Quais sinais indicam que uma criança precisa de avaliação oftalmológica?

Alguns sinais de alerta incluem: apertar os olhos para enxergar de longe, aproximar muito o rosto de livros ou telas, dores de cabeça frequentes, olhos vermelhos ou lacrimejantes, desvio ocular aparente (estrabismo), sensibilidade excessiva à luz e dificuldade de aprendizado escolar. Bebês com histórico de prematuridade devem ter acompanhamento oftalmológico desde os primeiros meses.

O SUS fornece óculos e cirurgias para crianças?

Sim. O SUS disponibiliza óculos de grau gratuitamente por meio de programas estaduais ou municipais. Cirurgias como catarata congênita, estrabismo, ptose palpebral e obstrução do ducto lacrimal são realizadas em hospitais credenciados, geralmente com encaminhamento da rede básica e regulação. O tempo de espera varia conforme a região e a complexidade do procedimento.