Caso Marielle: MP recorre para aumentar penas de Ronnie Lessa e Élcio Queiroz
O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) protocolou recurso de apelação contra a sentença do Tribunal do Júri que condenou Ronnie Lessa e Élcio Queiroz pelos assassinatos da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, ocorridos em 14 de março de 2018. A promotoria considera que as penas aplicadas foram desproporcionais diante da gravidade e das circunstâncias do crime, e busca o reconhecimento de qualificadoras que podem elevar significativamente o tempo de prisão dos condenados.
O crime que chocou o Brasil
Marielle Franco, vereadora do PSOL na cidade do Rio de Janeiro, era conhecida por sua atuação em defesa dos direitos humanos, das mulheres e da população negra, além de denunciar a violência policial e a ação das milícias nas comunidades cariocas. Na noite de 14 de março de 2018, após participar de um evento no centro da cidade, o carro em que ela estava foi alvo de disparos. Marielle e o motorista Anderson Gomes morreram no local; a assessora Fernanda Chaves, que estava no banco de trás, sobreviveu. O caso rapidamente ganhou repercussão nacional e internacional, tornando-se um símbolo da luta contra a violência política e a impunidade.
As condenações em 2023
Após anos de investigação, Ronnie Lessa e Élcio Queiroz foram levados a júri popular em outubro de 2023. O julgamento, que durou vários dias, foi acompanhado por dezenas de jornalistas e ativistas. Lessa, apontado como o autor dos disparos, foi condenado a 78 anos e 9 meses de prisão. Já Élcio Queiroz, que dirigia o carro usado na emboscada, recebeu pena de 59 anos e 8 meses. Ambos foram considerados culpados por homicídio duplamente qualificado e tentativa de homicídio contra Fernanda Chaves. A sentença foi saudada como uma vitória da Justiça, mas o Ministério Público entende que as circunstâncias do crime autorizam uma punição ainda mais severa.
Os argumentos do recurso do MP
No recurso, a promotoria defende que o tribunal deixou de aplicar corretamente duas qualificadoras que teriam o condão de aumentar a pena-base:
- Motivo torpe: A acusação sustenta que o assassinato foi motivado pela atuação política de Marielle contra as milícias. Para o MP, a ligação dos executores com grupos milicianos e a decisão de silenciar uma voz crítica configuram motivo torpe, o que agrava a culpabilidade dos réus.
- Recurso que dificultou a defesa das vítimas: A execução ocorreu de forma repentina, com o veículo das vítimas sendo fechado e os ocupantes alvejados sem qualquer chance de reação. Essa modalidade de emboscada, na visão do MP, impossibilitou a defesa e justifica uma pena mais alta.
O recurso pede que o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ) analise esses pontos e, se acolhidos, refaça a dosimetria da pena, aumentando o tempo total de reclusão.
O que o recurso pode mudar na prática
Caso o TJRJ reconheça as qualificadoras, duas situações podem ocorrer: o tribunal pode desde logo majorar as penas, fixando novo quantum; ou pode anular a sentença para que um novo júri seja realizado em relação à dosimetria. Em qualquer cenário, a expectativa é que as penas se aproximem do máximo previsto para homicídio qualificado, que é de 30 anos de reclusão para cada vítima. Considerando que foram duas vítimas fatais e uma tentativa, as penas atuais já estão acima desse teto por conta da continuidade delitiva, mas o MP entende que o cálculo pode ser elevado ainda mais com a aplicação correta das agravantes.
A investigação dos mandantes no STF
O recurso do MP não se limita às penas dos executores. Ao reforçar a tese de crime político e conexão com milícias, a promotoria fortalece as investigações sobre os mandantes. O caso tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, que apura a participação dos irmãos Chiquinho Brazão (deputado federal) e Domingos Brazão (conselheiro do Tribunal de Contas do Estado), além do delegado Rivaldo Barbosa. A delação premiada de Ronnie Lessa, que apontou esses nomes como responsáveis pela ordem de execução, é peça-chave nessa investigação. Caso o TJRJ reafirme a tese de motivo torpe, isso dará ainda mais respaldo ao STF para avançar na responsabilização dos mandantes. A expectativa é que o julgamento dos mandantes seja um dos próximos capítulos desse caso que já se tornou um marco na luta contra a violência política no Brasil. Confira também as últimas notícias sobre casos policiais que mobilizam o país.
Linha do tempo do caso
- 14 de março de 2018: Marielle Franco e Anderson Gomes são assassinados a tiros no Centro do Rio.
- 2019: Ronnie Lessa e Élcio Queiroz são presos pela Polícia Civil do Rio.
- 2020-2022: Fase de instrução processual, audiências e produção de provas.
- Outubro de 2023: Tribunal do Júri condena Lessa a 78 anos e Queiroz a 59 anos de prisão.
- 2024: MPRJ recorre da sentença, pedindo o reconhecimento de qualificadoras e aumento das penas.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Por que o Ministério Público recorreu da condenação?
O MP entende que as penas aplicadas foram brandas diante da gravidade do crime, especialmente por não terem sido reconhecidas qualificadoras como motivo torpe e recurso que dificultou a defesa das vítimas. O recurso pede que o TJRJ corrija essa dosimetria.
Quais são as principais qualificadoras que o MP quer ver reconhecidas?
As duas principais são: motivo torpe (a motivação política e a ligação com milícias) e recurso que impossibilitou a defesa das vítimas (emboscada).
Qual é a pena máxima para homicídio qualificado no Brasil?
O homicídio qualificado tem pena prevista de 12 a 30 anos de reclusão. Quando há mais de uma vítima, aplicam-se as regras do concurso de crimes, podendo a pena ultrapassar 30 anos.
O que acontece com os condenados enquanto o recurso não é julgado?
Ambos permanecem presos preventivamente. A apelação não concede efeito suspensivo automático para soltura, e a manutenção da prisão é justificada pela gravidade concreta do crime e pelo risco de fuga.
Este recurso tem relação com a investigação dos mandantes no STF?
Sim. Ao reafirmar a tese de crime político e miliciano, o recurso reforça a linha de investigação do STF sobre os supostos mandantes, como os irmãos Brazão e o delegado Rivaldo Barbosa.
Quando o recurso deve ser julgado?
Não há data definida. O TJRJ analisará o recurso em segunda instância, e o julgamento pode ocorrer ao longo de 2025, dependendo da pauta do tribunal.
