Entenda proposta aprovada sobre reoneração da folha de pagamento

Em meio ao esforço do governo federal para recompor as contas públicas, o Congresso Nacional aprovou uma proposta que estabelece a reoneração gradual da folha de pagamento para os 17 setores que mais empregam no país. O texto, que substitui o modelo de desoneração vigente desde 2011, promete gerar impactos significativos para empresas, trabalhadores e a economia como um todo. Neste artigo, explicamos os principais pontos da proposta, o contexto da desoneração e o que esperar da nova regra.

O que é a desoneração da folha de pagamento?

A desoneração da folha de pagamento foi instituída pela Lei 12.546, de 2011, como uma medida para reduzir os encargos trabalhistas e estimular a formalização do emprego. Na prática, as empresas de setores intensivos em mão de obra deixaram de recolher 20% de contribuição previdenciária sobre a folha de salários e passaram a pagar alíquotas de 1% a 4,5% sobre a receita bruta. A medida beneficiou originalmente 15 setores, depois ampliados para 17, e foi prorrogada sucessivamente ao longo dos governos Dilma Rousseff, Michel Temer e Jair Bolsonaro. Em 2023, o Congresso aprovou a extensão do benefício até 2027, mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vetou a prorrogação, gerando intensa negociação com o Legislativo.

O que propõe a reoneração aprovada?

Após meses de debate entre Executivo e Legislativo, foi aprovada uma proposta de reoneração gradual. O texto determina que as empresas atualmente desoneradas continuarão a recolher a contribuição sobre a receita bruta com alíquotas reduzidas até 31 de dezembro de 2024. A partir de 2025, terão de contribuir progressivamente sobre a folha de salários, até alcançar a alíquota plena de 20% ao final do período de transição, estimado em quatro anos. O cronograma prevê alíquotas reduzidas nos primeiros anos, com aumentos anuais até a completa reoneração em 2028. A proposta também mantém a possibilidade de as empresas optarem pelo modelo misto, desde que cumpram requisitos de geração de empregos e mantenham a competitividade.

Por que o governo defende a reoneração?

O principal argumento do governo é a necessidade de aumentar a arrecadação da Previdência Social. Desde a criação da desoneração, a renúncia fiscal acumulada ultrapassa R$ 100 bilhões, segundo estimativas oficiais. Com a aprovação do novo arcabouço fiscal, o governo busca fontes de receita para cumprir a meta de resultado primário. A reoneração também é defendida por economistas que apontam a regressividade do benefício: muitas empresas desoneradas têm alta lucratividade e não necessitam do subsídio. Por outro lado, os setores produtivos argumentam que a volta dos encargos sobre a folha aumentará o custo do trabalho, incentivará a informalidade e poderá levar a demissões em massa.

Principais mudanças previstas

  • Fim gradual do regime especial: as empresas deixarão de contribuir sobre a receita bruta e passarão a contribuir sobre a folha de salários de forma progressiva;
  • Manutenção do modelo atual até o fim de 2024: as alíquotas reduzidas sobre a receita bruta continuam valendo até 31 de dezembro de 2024;
  • Alíquotas progressivas a partir de 2025: percentuais mais baixos no início, com aumentos anuais até atingir 20% sobre a folha em 2028;
  • Exceções setoriais: setores comprovadamente intensivos em mão de obra poderão manter a contribuição sobre a receita bruta em condições específicas;
  • Compensação para estados e municípios: medidas para mitigar a perda de arrecadação dos entes subnacionais com a reoneração.

Impactos na economia e no emprego

O debate sobre a reoneração envolve projeções contraditórias. De um lado, a equipe econômica estima um aumento de arrecadação de aproximadamente R$ 30 bilhões ao ano com o fim do benefício. Esse recurso poderia fortalecer a Previdência e permitir investimentos em infraestrutura e programas sociais. Do lado oposto, as entidades empresariais alertam que o custo adicional pode inviabilizar negócios, reduzir contratações e aumentar preços ao consumidor. Setores como tecnologia da informação, call center, construção civil e têxtil estão entre os mais expostos. Estudos indicam que, no longo prazo, a desoneração gerou empregos formais, mas também reduziu a arrecadação. A reoneração, portanto, terá efeitos ambíguos sobre o mercado de trabalho.

Perguntas frequentes

1. A reoneração já está em vigor?

Não. A proposta foi aprovada pelo Congresso e sancionada, mas as novas regras começam a valer apenas em 2025. Até o fim de 2024, as empresas continuam a contribuir nos moldes da desoneração.

2. Meu salário será descontado?

Não. A contribuição previdenciária patronal é de responsabilidade da empresa, não do trabalhador. O salário do empregado não sofrerá desconto direto em razão da reoneração.

3. Quais setores são mais afetados?

Os 17 setores que atualmente são beneficiados pela desoneração, entre eles tecnologia da informação, call center, construção civil, comunicação, transportes rodoviários, confecções, calçados, entre outros.

4. A reoneração pode ser revista?

Sim. O Congresso pode alterar a legislação a qualquer momento, especialmente diante de pressões setoriais e mudanças no cenário econômico. A transição gradual foi justamente uma forma de permitir ajustes ao longo do caminho.

5. Como minha empresa deve se preparar?

É importante que as empresas afetadas revisem seus custos trabalhistas e planejem o impacto orçamentário a partir de 2025. Consultar um contador ou especialista tributário é essencial para entender as alíquotas aplicáveis e as possíveis alternativas previstas na lei.