Especialistas defendem que SUS faça prevenção de câncer hereditário

Cerca de 5% a 10% de todos os casos de câncer têm origem hereditária. Para reduzir o impacto desses tumores, um grupo crescente de especialistas brasileiros defende que o Sistema Único de Saúde (SUS) incorpore a prevenção do câncer hereditário como política pública. A proposta inclui acesso a testes genéticos, aconselhamento especializado e protocolos de acompanhamento para pessoas com alto risco hereditário. Neste artigo, explicamos o que é o câncer hereditário, quais os benefícios da prevenção e quais os desafios para implementar essa medida no Brasil.

O que é o câncer hereditário?

O câncer hereditário é causado por mutações genéticas transmitidas de pais para filhos. Diferentemente dos cânceres esporádicos, que surgem ao acaso ao longo da vida, os hereditários seguem padrões familiares bem definidos. Síndromes como BRCA1/BRCA2 (associadas a câncer de mama e ovário), Síndrome de Lynch (câncer colorretal hereditário) e polipose adenomatosa familiar são exemplos conhecidos. Identificar essas síndromes permite adotar medidas preventivas e de vigilância que podem salvar vidas.

A importância dos testes genéticos

Testes genéticos podem detectar mutações em genes de predisposição ao câncer. Uma pessoa com mutação em BRCA1, por exemplo, tem risco muito elevado de desenvolver câncer de mama e ovário ao longo da vida. Com o diagnóstico precoce, é possível oferecer vigilância intensificada (ressonância magnética, mamografia), quimioprevenção ou cirurgias profiláticas (mastectomia, ooforectomia). Países como Reino Unido e Canadá já implementaram programas de testagem para grupos de risco, e os resultados mostram redução da mortalidade e economia para o sistema de saúde.

Benefícios da prevenção no SUS

Incorporar a prevenção do câncer hereditário no SUS pode trazer ganhos expressivos. A detecção de portadores assintomáticos permite intervenções antes que o câncer se desenvolva, evitando tratamentos caros e aumentando a sobrevida. Estudos internacionais indicam que o rastreamento genético direcionado é custo-efetivo em longo prazo, especialmente quando focado em famílias com histórico forte. No Brasil, estima-se que milhares de casos de câncer de mama, ovário, colorretal e outros poderiam ser prevenidos ou diagnosticados em estágio inicial se houvesse acesso amplo a testes genéticos.

Desafios para a implementação

Apesar dos benefícios, a implementação de um programa nacional de prevenção do câncer hereditário no SUS enfrenta obstáculos significativos:

  • Infraestrutura laboratorial: é necessário expandir a capacidade de sequenciamento genético e garantir qualidade dos testes.
  • Capacitação profissional: médicos, enfermeiros e geneticistas precisam ser treinados para identificar pacientes elegíveis e interpretar resultados.
  • Custos iniciais: os testes genéticos ainda têm custo elevado, embora venham caindo; é preciso negociação e produção local.
  • Aconselhamento genético: essencial para que os pacientes compreendam os riscos e as opções; falta de profissionais especializados.
  • Equidade: garantir que o acesso não se restrinja a grandes centros urbanos.

Especialistas sugerem que o primeiro passo seja a criação de centros de referência em genética oncológica em hospitais universitários e institutos de câncer.

O posicionamento dos especialistas

Sociedades médicas como a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) e a Associação Brasileira de Câncer Hereditário (ABRACH) têm se manifestado publicamente a favor da inclusão dos testes genéticos no SUS. Segundo esses profissionais, “prevenir é mais barato e mais humano do que tratar tumores avançados”. A proposta inicial seria atender pacientes com forte histórico familiar e critérios de suspeição estabelecidos em diretrizes nacionais. Além disso, defendem a criação de um registro nacional de famílias com síndromes hereditárias para monitoramento e pesquisa.

Perspectivas futuras

O Ministério da Saúde já demonstrou interesse em ampliar a genômica no SUS. O Programa Nacional de Genômica e Saúde de Precisão está em discussão, e acredita-se que nos próximos anos o Brasil poderá oferecer aconselhamento genético e testes para câncer hereditário de forma escalonada. Iniciativas piloto em estados como São Paulo e Rio Grande do Sul já mostram viabilidade. Enquanto isso, especialistas continuam pressionando por políticas públicas mais ousadas e pelo financiamento adequado.

Pontos principais

  • 5% a 10% dos cânceres são hereditários.
  • Testes genéticos permitem prevenção e detecção precoce.
  • Países como Reino Unido já incorporaram testagem populacional.
  • Desafios: infraestrutura, capacitação, custos e equidade.
  • Especialistas recomendam começar por grupos de risco.

Perguntas frequentes (FAQ)

1. O que é câncer hereditário?
É o tipo de câncer causado por mutações genéticas transmitidas de pais para filhos. Representa cerca de 5% a 10% de todos os casos.

2. Quais os principais sinais de alerta?
Histórico familiar de câncer em parentes próximos, diagnóstico em idade precoce (antes dos 50 anos), múltiplos tumores no mesmo indivíduo e ocorrência de cânceres bilaterais (como mama nos dois seios).

3. Quem deve considerar o teste genético?
Pessoas com forte histórico familiar, tumores raros ou síndromes hereditárias suspeitas. O encaminhamento deve ser feito por um médico geneticista ou oncologista.

4. O SUS já oferece algum teste genético oncológico?
Ainda não há um programa nacional estruturado, mas existem iniciativas isoladas em alguns centros de referência e hospitais universitários. A reivindicação atual é ampliar o acesso.

5. Como posso saber se tenho risco hereditário?
Procure um médico para avaliar seu histórico familiar e pessoal. Se houver suspeita, você pode ser encaminhado a um serviço de genética clínica.

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