OMS confirma pólio em bebê de 10 meses na Faixa de Gaza
A Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmou oficialmente a circulação do poliovírus na Faixa de Gaza após detectar o vírus em um bebê de apenas 10 meses, que apresenta paralisia flácida aguda. Este é o primeiro caso clínico de poliomielite registrado na região em mais de 25 anos. A confirmação acendeu um alerta internacional, pois ocorre em meio a uma crise humanitária devastadora que compromete severamente o acesso à saúde, água potável e saneamento básico.
O que revelaram os exames
A OMS informou que análises laboratoriais das fezes da criança e de amostras ambientais de esgoto coletadas em Gaza confirmaram a presença do poliovírus derivado da vacina tipo 2 (cVDPV2). Esse tipo de vírus é uma mutação do vírus atenuado presente na vacina oral contra a pólio (VOP) e pode circular em comunidades com baixa cobertura vacinal, onde a imunidade da população é insuficiente. A paralisia observada na criança é um sintoma clássico da doença, que pode evoluir para complicações graves se o vírus não for contido rapidamente.
Na prática, a OMS já havia emitido alertas em julho, quando detectou o poliovírus em amostras ambientais, o que motivou a intensificação da vigilância epidemiológica. Agora, com a confirmação de um caso humano, a situação escalou para emergência de saúde pública com potencial de propagação regional.
O que é a poliomielite e como é transmitida
A poliomielite é uma doença viral altamente contagiosa que afeta principalmente crianças menores de 5 anos. O poliovírus entra no corpo pela boca, por meio de água ou alimentos contaminados, e se multiplica no intestino. Na maioria dos casos, a infecção é assintomática, mas em cerca de 1 em cada 200 infecções o vírus invade o sistema nervoso central, causando paralisia irreversível dos membros. Em casos mais graves, a paralisia pode atingir os músculos respiratórios e levar à morte.
Não existe tratamento curativo para a pólio. A única forma de prevenção é a vacinação. A doença foi erradicada da maior parte do mundo graças às campanhas globais de imunização, mas ainda persiste em países com cobertura vacinal baixa ou onde conflitos armados interrompem os programas de saúde.
Como surge o poliovírus derivado da vacina
O poliovírus derivado da vacina (cVDPV) é um fenômeno raro, mas conhecido, que ocorre quando o vírus vivo atenuado presente na vacina oral (VOP) circula em uma comunidade com baixa taxa de vacinação. Como o vírus se replica no intestino das crianças vacinadas e também pode infectar pessoas não vacinadas ao redor, ele pode sofrer mutações ao longo do tempo, readquirindo a capacidade de causar paralisia. Esse risco é um dos motivos pelos quais muitos países, incluindo o Brasil, já substituíram a VOP pela vacina inativada (VIP) em algumas fases do calendário.
No entanto, em situações de emergência, como a atual em Gaza, a vacina oral é considerada mais adequada para campanhas de vacinação em massa, por ser de fácil administração e induzir imunidade intestinal mais forte, interrompendo rapidamente a transmissão do vírus.
Crise humanitária em Gaza: ambiente propício para a pólio
A Faixa de Gaza vive uma das piores crises humanitárias do século. Os constantes bombardeios e confrontos destruíram grande parte da infraestrutura de saúde, abastecimento de água e rede de esgoto. Os hospitais operam com capacidade reduzida, faltam medicamentos, combustível e insumos básicos. Mais de 90% da população foi deslocada internamente, vivendo em abrigos superlotados com acesso limitado a água potável e saneamento.
A desnutrição infantil atinge níveis críticos, o que enfraquece o sistema imunológico das crianças e as torna mais vulneráveis a infecções. Essas condições são um terreno fértil para a propagação de doenças de transmissão fecal-oral, como a poliomielite, e tornam urgente a retomada das campanhas de vacinação.
Resposta de emergência da OMS e parceiros
A OMS, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) estão coordenando uma resposta de emergência. O plano prevê duas rodadas de vacinação em massa em toda a Faixa de Gaza, com o objetivo de imunizar mais de 640 mil crianças menores de 10 anos. As equipes pretendem utilizar a vacina oral monovalente tipo 2 (VOPm2), específica para combater o cVDPV2.
Para que a campanha seja bem-sucedida, a OMS insiste na necessidade de um cessar-fogo humanitário que permita o deslocamento seguro das equipes de saúde e o acesso a todas as áreas do território, muitas delas isoladas pelos combates. Sem uma pausa nos confrontos, será praticamente impossível alcançar todas as crianças vulneráveis.
Riscos para a erradicação global da pólio
A circulação do poliovírus em Gaza representa uma ameaça não apenas para a população local, mas também para Israel, Egito e outros países vizinhos, especialmente onde a cobertura vacinal não é uniforme. Qualquer surto em uma região que estava livre da doença há décadas é um revés significativo para a Iniciativa Global de Erradicação da Pólio (GPEI), que já investiu bilhões de dólares e décadas de trabalho para eliminar a doença no mundo.
A OMS classifica o risco de propagação internacional como alto e recomenda que os países intensifiquem a vigilância epidemiológica, vacinem viajantes provenientes de áreas afetadas e mantenham altas taxas de imunização de rotina.
Lições para o Brasil
O Brasil é referência mundial na erradicação da pólio — o último caso foi registrado em 1989 e o país recebeu a certificação de eliminação da doença em 1994. No entanto, nos últimos anos, a cobertura vacinal contra a pólio vem caindo em diversos municípios, o que acende um sinal de alerta. O caso de Gaza reforça a importância de manter a vacinação em dia e de não baixar a guarda, mesmo em regiões onde a doença já não circula.
A poliomielite é uma doença prevenível e o único caminho para mantê-la erradicada no Brasil é garantir que todas as crianças recebam as doses da vacina dentro do calendário oficial.
Perguntas frequentes
O que é poliomielite?
Doença viral que pode causar paralisia irreversível. É transmitida por água e alimentos contaminados e atinge principalmente crianças menores de 5 anos.
O que significa cVDPV2?
É a sigla para poliovírus derivado da vacina tipo 2, uma cepa que sofreu mutação a partir da vacina oral e readquiriu a capacidade de causar paralisia.
Como o bebê de Gaza foi infectado?
Foi exposto ao poliovírus circulante no ambiente, favorecido pela baixa cobertura vacinal e pelas condições precárias de saneamento.
Há risco de a pólio se espalhar para outros países?
Sim. A OMS considera o risco de propagação internacional alto e recomenda vigilância reforçada nas fronteiras.
O que está sendo feito para conter o surto?
Campanhas de vacinação em massa estão sendo organizadas pela OMS, UNICEF e UNRWA, com a necessidade de um cessar-fogo humanitário para acesso total.
O Brasil corre risco de reintrodução da pólio?
O risco existe se a cobertura vacinal continuar caindo. Manter altas taxas de vacinação é essencial para evitar o retorno da doença.
