OMS: investimento em vacinas pode reduzir uso de antibióticos em 22%

Por Redação | Jurema em Foco

Um novo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que o investimento em vacinas pode reduzir o uso global de antibióticos em 22%, uma estratégia fundamental para conter a resistência antimicrobiana (RAM), que ameaça décadas de avanços na medicina moderna. O estudo, que analisou dados de 194 países, mostra que a imunização contra 24 patógenos específicos pode evitar milhões de infecções resistentes a medicamentos a cada ano.

O relatório da OMS

O documento intitulado Estimating the impact of vaccines on antimicrobial resistance utilizou modelos matemáticos para calcular o impacto potencial da vacinação na redução do consumo de antibióticos. De acordo com a OMS, as vacinas contra pneumococo, rotavírus, Haemophilus influenzae tipo b (Hib) e febre tifoide estão entre as mais efetivas. Ao evitar que as pessoas adoeçam, as vacinas diminuem a prescrição desnecessária de antibióticos, interrompendo o ciclo que leva ao surgimento de superbactérias.

A agência da ONU reforça que a vacinação é uma ferramenta subutilizada no combate à RAM. Enquanto grande parte dos esforços se concentra no desenvolvimento de novos antibióticos, as vacinas atuam na prevenção, reduzindo a necessidade do uso desses medicamentos.

Como as vacinas reduzem o uso de antibióticos?

As vacinas preparam o sistema imunológico para reconhecer e combater patógenos específicos. Quando uma pessoa vacinada entra em contato com o agente infeccioso, seu corpo responde de forma mais rápida e eficaz, muitas vezes impedindo o desenvolvimento da doença. Isso se traduz em menos consultas médicas, menos diagnósticos de infecções bacterianas e, consequentemente, menos prescrições de antibióticos.

Além do benefício direto ao indivíduo, a vacinação em massa reduz a circulação de patógenos na comunidade, protegendo indiretamente pessoas não vacinadas (imunidade de rebanho). Esse efeito é especialmente importante para populações vulneráveis, como crianças pequenas, idosos e imunossuprimidos.

Infecções virais também se beneficiam: ao prevenir gripes e outras viroses, as vacinas diminuem as infecções bacterianas secundárias (como pneumonias bacterianas pós-gripe), que frequentemente exigem antibióticos.

Resistência antimicrobiana: um desafio global

A resistência antimicrobiana ocorre quando bactérias, vírus, fungos e parasitas deixam de responder aos medicamentos que antes eram eficazes. O uso excessivo e inadequado de antibióticos é o principal motor desse fenômeno. Estima-se que, em 2019, 1,27 milhão de mortes tenham sido diretamente atribuídas à RAM em todo o mundo, e a projeção para 2050 é de 10 milhões de mortes anuais se nenhuma ação coordenada for tomada.

As vacinas oferecem uma abordagem preventiva que reduz a pressão seletiva sobre as bactérias: menos infecções significam menos exposição a antibióticos e, portanto, menor oportunidade para o desenvolvimento de resistência. A OMS defende que o investimento em vacinação é tão importante quanto o desenvolvimento de novos antibióticos e medidas de controle de infecção.

Oportunidades para o Brasil

O Brasil possui um dos maiores programas de imunização do mundo, o Programa Nacional de Imunizações (PNI), que oferece diversas vacinas gratuitamente pelo SUS. No entanto, a cobertura vacinal tem enfrentado desafios nos últimos anos, com queda nas taxas de vacinação. A retomada das altas coberturas pode trazer benefícios não só para a prevenção de doenças, mas também para a redução do uso de antibióticos no país.

De acordo com especialistas em saúde pública, a vacinação contra pneumococo e influenza poderia evitar milhares de hospitalizações por pneumonia e outras infecções respiratórias, reduzindo significativamente o consumo de antibióticos no sistema de saúde brasileiro. Além disso, a ampliação da cobertura da vacina contra rotavírus pode diminuir as diarreias graves infantis e o uso inadequado de antibióticos para gastroenterites de origem viral.

Vacinas-chave no combate à RAM

O relatório da OMS destaca as seguintes vacinas como prioritárias para maximizar o impacto na redução do uso de antibióticos:

  • Pneumocócica conjugada: previne pneumonia, meningite e otite média, infecções que frequentemente levam ao uso de antibióticos.
  • Rotavírus: evita diarreia grave em crianças, reduzindo hospitalizações e prescrições desnecessárias de antibióticos para gastroenterites virais.
  • Haemophilus influenzae tipo b (Hib): protege contra meningite e pneumonia bacteriana em crianças.
  • Influenza (gripe): reduz infecções virais e, consequentemente, as complicações bacterianas secundárias que exigem antibióticos.
  • Febre tifoide: especialmente relevante em regiões com saneamento básico precário, onde a doença é endêmica.

Perguntas frequentes

Por que a OMS destaca exatamente 22%?

O percentual foi calculado com base em modelos matemáticos que consideram a eficácia das vacinas existentes contra 24 patógenos e a carga atual de infecções resistentes. O número representa a redução potencial no consumo global de antibióticos se as metas de cobertura vacinal da OMS fossem atingidas em todos os países.

Vacinas virais podem realmente reduzir o uso de antibióticos?

Sim. Embora antibióticos não combatam vírus, infecções virais frequentemente levam a infecções bacterianas secundárias (como pneumonia bacteriana após gripe). Ao prevenir a infecção viral, a vacina reduz indiretamente a necessidade de antibióticos. Além disso, evita consultas médicas onde antibióticos são prescritos desnecessariamente para doenças virais.

O que é resistência antimicrobiana e por que é perigosa?

É a capacidade que microrganismos adquirem de resistir aos efeitos dos medicamentos. Isso torna infecções comuns mais difíceis de tratar, prolonga internações, aumenta custos hospitalares e eleva a mortalidade. A OMS classifica a RAM como uma das dez principais ameaças globais à saúde pública.

Como o Brasil pode se beneficiar dessa estratégia?

O Brasil já possui um programa de imunização robusto. Com a recuperação das altas coberturas vacinais, principalmente das vacinas pneumocócica e influenza, o país pode reduzir significativamente as hospitalizações por infecções respiratórias e o consumo de antibióticos, além de contribuir para o esforço global contra a resistência antimicrobiana.

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