Sem gotinha, entenda como fica o novo esquema vacinal contra a poliomielite
A campanha de vacinação contra a poliomielite no Brasil passou por uma mudança histórica em 2024. A famosa "gotinha" — a Vacina Oral Poliomielite bivalente (VOPb) — deixou de ser utilizada na rotina de vacinação infantil. O Ministério da Saúde adotou exclusivamente o esquema com a Vacina Inativada Poliomielite (VIP), aplicada por via injetável. A medida segue uma recomendação global da Organização Mundial da Saúde (OMS) e representa um passo decisivo para a erradicação definitiva da doença no planeta. Entenda os detalhes da transição, como fica o calendário vacinal do seu filho e o que muda na prática.
O fim de um símbolo: por que a gotinha foi aposentada?
A vacina oral contra a poliomielite, criada por Albert Sabin, foi uma das grandes responsáveis pela erradicação da doença no Brasil e no mundo. Desde a década de 1960, ela era aplicada em campanhas nacionais, muitas vezes em dias de mobilização conhecidos como "Dia D". O sucesso foi tamanho que o Brasil recebeu o certificado de eliminação da poliomielite em 1994.
No entanto, a VOP é feita com o vírus vivo atenuado. Em situações extremamente raras, esse vírus pode sofrer mutação e circular em comunidades com baixa cobertura vacinal, dando origem ao poliovírus derivado da vacina (PVDV), que também pode causar paralisia infantil. Como o poliovírus selvagem tipo 2 já foi erradicado globalmente, a OMS orientou todos os países a retirarem a vacina oral que contém esse componente da rotina, eliminando o risco de novos surtos de PVDV. O Brasil segue essa diretriz, substituindo a VOP pela VIP, que contém o vírus inativado (morto) e não apresenta esse risco.
Como fica o novo calendário vacinal?
O novo esquema vacinal contra a poliomielite é composto exclusivamente pela VIP (injetável). A mudança unifica o calendário e elimina a necessidade dos antigos "reforços" com a gotinha em campanhas anuais. Confira as doses obrigatórias:
- 1ª dose: aos 2 meses de idade — VIP injetável
- 2ª dose: aos 4 meses de idade — VIP injetável
- 3ª dose: aos 6 meses de idade — VIP injetável
- 1º reforço: aos 15 meses de idade — VIP injetável
- 2º reforço: aos 4 anos de idade — VIP injetável
Com essa nova configuração, a criança recebe cinco doses da vacina VIP ao longo da primeira infância, garantindo uma proteção robusta contra todos os três tipos de poliovírus. As antigas campanhas anuais com a gotinha para crianças de 1 a 4 anos deixam de existir, substituídas pelo reforço no calendário regular.
Diferenças entre a VOP e a VIP
Entender as diferenças entre as duas vacinas ajuda a compreender por que a mudança é benéfica. A VOP (oral) era composta pelo vírus vivo atenuado, capaz de induzir imunidade intestinal forte e proteger a comunidade por meio da eliminação do vírus vacinal nas fezes. A VIP (injetável) é feita com o vírus morto e não é capaz de se replicar ou sofrer mutação.
A VIP oferece uma excelente proteção individual contra a paralisia infantil, com eficácia superior a 95% após o esquema completo. Embora a imunidade intestinal seja um pouco menor que a da VOP, a ausência de risco de contágio pelo vírus vacinal é a grande vantagem. Além disso, a VIP é aplicada por via intramuscular, geralmente na coxa ou no braço da criança.
A transição no Brasil e o impacto na saúde pública
A substituição da VOP pela VIP começou a ser planejada há anos, com a incorporação progressiva da vacina injetável no calendário básico. Até então, as crianças recebiam VIP aos 2, 4 e 6 meses e VOP nos reforços aos 15 meses e 4 anos, além das campanhas anuais. Com a nova estratégia, todas as doses passam a ser feitas com VIP.
A mudança representa um marco na saúde pública brasileira. Manter altas coberturas vacinais é fundamental para evitar a reintrodução do vírus no país. Nos últimos anos, a cobertura vacinal contra a poliomielite caiu, gerando preocupação entre especialistas. A unificação do esquema com a VIP visa simplificar a logística e garantir que mais crianças completem o ciclo vacinal dentro do prazo.
Efeitos colaterais e segurança da VIP
A vacina VIP é considerada extremamente segura. Os efeitos adversos mais comuns são reações locais leves, como dor, vermelhidão e inchaço no local da aplicação. Febre baixa e irritabilidade também podem ocorrer nas primeiras 24 horas. Reações alérgicas graves são extremamente raras.
Diferentemente da VOP, a VIP não tem contraindicação para crianças imunodeprimidas ou que convivem com pessoas com sistema imunológico comprometido. Isso amplia a proteção coletiva e torna o esquema mais inclusivo.
FAQ: perguntas frequentes sobre o novo esquema vacinal
1. Meu filho já tomou as gotinhas nos anos anteriores. Ele precisa repetir o esquema com a VIP?
Não. Se a criança já completou o esquema vacinal anterior (com as doses de VIP e os reforços com VOP), ela está plenamente protegida. Não é necessário reiniciar o ciclo.
2. A VIP dói mais que a gotinha?
A VIP é aplicada por injeção, portanto, causa um desconforto rápido, semelhante a outras vacinas injetáveis. A dor é passageira. Já a gotinha era administrada por via oral, sem dor. Para minimizar o desconforto, o aleitamento materno ou um pequeno estímulo de distração pode ajudar.
3. Por que mudar se a gotinha funcionou por tanto tempo?
A gotinha funcionou muito bem e foi essencial para erradicar a poliomielite. No entanto, em um cenário onde a doença está controlada, o risco raro de mutação do vírus vacinal se torna o principal obstáculo para a erradicação definitiva. A mudança para a VIP elimina esse risco.
4. A VIP protege contra todos os tipos de poliovírus?
Sim. A VIP utilizada no Brasil protege contra os três sorotipos do poliovírus (tipo 1, 2 e 3). É a mesma vacina utilizada em países como Estados Unidos e Canadá.
5. O que acontece se meu filho perder alguma dose?
O ideal é seguir o calendário vacinal rigorosamente. Se houver atraso, procure a unidade de saúde mais próxima para regularizar a situação. O profissional de saúde indicará as doses necessárias para completar o esquema.
6. Quando começa a valer o novo esquema na prática?
A transição já está em vigor em todo o território nacional. As unidades básicas de saúde (UBS) já aplicam a VIP nas doses de reforço. Recomenda-se verificar a caderneta de vacinação e atualizar as pendências o quanto antes.
Conclusão
O fim da gotinha é motivo de celebração: significa que o Brasil está cada vez mais perto de ver a poliomielite como uma doença do passado. A VIP é segura, eficaz e oferece proteção duradoura. Manter a caderneta de vacinação em dia é um ato de amor e cidadania. Proteja seu filho e colabore para que o Brasil continue livre da poliomielite.
