UnB aprova cotas para pessoas trans em cursos de graduação

Por Redação | Atualizado em 15 de janeiro de 2025

A Universidade de Brasília (UnB) aprovou a reserva de vagas para pessoas trans (transexuais, travestis e não binárias) em todos os seus cursos de graduação. A decisão, tomada pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE), representa um marco na política de ações afirmativas da instituição e na luta por inclusão no ensino superior brasileiro.

Contexto da decisão

A UnB já possui tradição em políticas de ações afirmativas — foi uma das primeiras universidades federais a adotar cotas raciais, ainda antes da Lei de Cotas de 2012. Com a nova resolução, a universidade reconhece a necessidade de garantir acesso à população trans, historicamente excluída do ambiente acadêmico. Dados nacionais indicam que apenas 0,3% das pessoas trans têm acesso ao ensino superior, e a evasão escolar entre jovens trans é altíssima, motivada por preconceito, violência e falta de suporte familiar.

O que diz a resolução

A resolução aprovada estabelece que, em cada processo seletivo para cursos de graduação — incluindo o Sistema de Seleção Unificada (SiSU) e os vestibulares próprios da UnB —, será destinado um percentual de vagas para candidatos trans. Os critérios exatos de distribuição e a porcentagem ainda serão regulamentados pela Pró-Reitoria de Graduação, mas o texto já determina a obrigatoriedade da reserva. A medida abrange tanto ingressantes quanto transferências e reingressos, sempre que houver processo seletivo.

Quem pode concorrer

Consideram-se pessoas trans, para efeito da política, aquelas que se identificam com um gênero diferente do designado ao nascer, incluindo homens trans, mulheres trans, travestis e pessoas não binárias. A autodeclaração será o principal critério de identificação, podendo ser exigida documentação complementar em caso de dúvida fundada, conforme procedimentos já adotados em outras universidades.

Importância da medida

A aprovação das cotas trans na UnB tem um forte simbolismo. A universidade está localizada no Distrito Federal, centro político do país, e sua decisão pode influenciar outras instituições públicas e privadas. Além disso, a medida é vista como uma reparação histórica: a população trans enfrenta altos índices de violência, exclusão e pobreza. Garantir o acesso ao diploma universitário é uma ferramenta poderosa de transformação social.

Entidades estudantis e movimentos sociais comemoraram a decisão, mas ressaltam que as cotas precisam vir acompanhadas de políticas de permanência — como moradia estudantil, auxílio permanência, acolhimento psicológico e combate à discriminação dentro do campus. A UnB já possui alguns desses programas, mas deverá ampliá-los para atender à nova demanda.

Outras universidades que já adotam cotas trans

A UnB não é a primeira. Instituições como a Universidade Federal da Bahia (UFBA), a Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) já implementaram reserva de vagas ou bônus para pessoas trans. Cada uma adota um modelo diferente: algumas reservam uma porcentagem fixa, outras oferecem acréscimo de pontos na nota. A tendência é que mais universidades sigam o mesmo caminho, especialmente após a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que reconheceu a obrigação do Estado de promover a inclusão da população trans.

Desafios e próximos passos

Embora a resolução seja um avanço, desafios permanecem. A regulamentação detalhada precisa garantir que as vagas sejam efetivamente ocupadas e que não haja fraudes. Também é necessário preparar a comunidade acadêmica para receber esses estudantes, com treinamento de servidores, campanhas de conscientização e criação de comitês de diversidade. Outro ponto é a articulação com políticas públicas de saúde e assistência social para que os alunos trans tenham condições de permanecer na universidade.

A UnB deverá publicar o edital com as regras definitivas nos próximos meses. A expectativa é que as primeiras vagas reservadas já estejam disponíveis no processo seletivo do segundo semestre de 2025 ou no início de 2026.

Perguntas frequentes

O que é considerado pessoa trans para fins de cota?

Pessoa trans é aquela cuja identidade de gênero difere do sexo designado no nascimento. A definição inclui homens trans, mulheres trans, travestis e pessoas não binárias, conforme o entendimento dos movimentos sociais e da legislação brasileira.

Como vou comprovar que sou trans?

A principal forma é a autodeclaração, prestada no ato da inscrição. A universidade pode solicitar documentos complementares em casos de inconsistência, mas o respeito à identidade de gênero deve ser o princípio norteador.

As cotas trans são cumulativas com as cotas raciais?

Dependerá da regulamentação de cada processo seletivo. Em geral, as políticas de ações afirmativas são independentes: uma pessoa pode concorrer tanto pelas cotas raciais quanto pelas cotas trans, desde que atenda aos critérios de cada uma. A UnB deverá definir regras claras para evitar sobreposição ou exclusão.

Qual a porcentagem de vagas reservadas?

A resolução ainda não fixou um percentual. Esse número será definido pela Pró-Reitoria de Graduação em conjunto com o CEPE, levando em conta estudos de demanda e viabilidade. A expectativa é que fique entre 1% e 5% das vagas de cada curso, seguindo exemplos de outras universidades.

E se nenhum candidato trans se inscrever ou preencher as vagas?

Geralmente, as vagas não preenchidas são revertidas para a ampla concorrência ou para outras modalidades de ação afirmativa. A regulamentação deverá prever essa situação.

A cota vale para todos os cursos?

Sim, a resolução abrange todos os cursos de graduação presenciais e a distância da UnB. Cursos que já possuem reserva específica (como licenciaturas em educação do campo) poderão ter regras complementares.

O que muda para quem já é estudante?

A política é voltada para novos ingressantes. Estudantes já matriculados não são afetados, mas poderão se beneficiar de futuras políticas de permanência e acolhimento que venham a ser implementadas.

A UnB vai criar novas vagas ou usar vagas existentes?

A tendência é que as cotas trans sejam preenchidas dentro do total de vagas já oferecidas, ou seja, parte das vagas atuais será destinada a esse público. Não há previsão de criação de novas turmas apenas para trans.

A aprovação das cotas para pessoas trans na UnB é um passo importante na construção de uma universidade mais diversa e inclusiva. Acompanhe as atualizações da instituição para saber os detalhes da implementação e como concorrer às vagas.